Tallis, Marçal e a Educação Ventilador
- Anderson Godz
- 8 de ago.
- 4 min de leitura

Negócios bilionários na área da educação surgiram nos últimos anos, impulsionados pela economia da atenção e pelo “playbook de sucesso”. O fenômeno carece de estudos. Venho analisando o tema de perto – mais do que muitos fariam: debati com figuras contraditórias, inscrevi-me nesses cursos e estive até na casa do Pablo Marçal.
Qualquer negócio hoje é um negócio de educação
A educação como construção de autoridade e modelo elegante de venda não é uma estratégia nova. Mais recentemente, indivíduos e empresas tornaram-se escolas do conhecimento descentralizado.
Só que vender um curso hoje na web não é o mesmo que há cinco anos. Os motores de lançamento e os milhões despejados nas redes elevaram – e muito – os CACs (custos de aquisição de clientes).
Nesse contexto, qualquer negócio precisa ser também um negócio de educação. Mas não qualquer educação.
Qual é a sua estratégia de educação: Ventilador ou Moinho?
Existem dois tipos de estratégias: as escolas que funcionam como ventiladores e as que se assemelham a moinhos. À primeira vista, ventiladores e moinhos têm formatos parecidos. Ambos giram, movimentam-se e geram vento. Mas há uma diferença fundamental: o princípio motriz e o princípio motor.
Na escola ventilador, você não precisa esperar o vento – ela faz vento. E escolhe a quantidade e a direção, o que, à primeira vista, parece muito mais conveniente e sedutor. Entretanto, no que diz respeito à energia, a escola ventilador apenas a consome. São os motores de venda massiva online.
Já na “escola moinho” o movimento ocorre pelo princípio motriz, ou seja, só gira quando o vento verdadeiramente sopra. Por vezes, esse sopro é imperfeito e incompleto, como é a essência do conhecimento humano. Mas, quando gira, produz energia. Na Gonew, optamos por esse modelo genuíno: não impulsionamos, nos impulsionamos.
Enquanto escolas ventilador gastam energia, escolas moinho a produzem.
Méritos e limites das escolas ventilador
Muitos refutam os modelos ventilador. Tenho minhas restrições, mas há lições.
• O modelo em si não é imoral, mas amoral.
• Ninguém atrai multidões sem oferecer algum valor.
• Essas escolas fazem muita gente pensar e agir diferente – e isso não é pouco em um país onde até inscritos em programas sociais se perdem nas bets.
• Há, sim, um “mindset” a ser trabalhado – e isso não seria feito em escala com programas tradicionais.
A questão é que, como em todos os setores, tem gente boa mas também tem festa estranha com gente esquisita.
Os riscos do modelo ventilador
Fazer educação pelo jogo da atenção flerta perigosamente com exageros de toda ordem: ostentação, hiperexposição, prosperidade gourmetizada, egocentrismo, politização e fortes doses de ritos e religiosidades – o que, aliás, os cristãos verdadeiros refutam. Dialética hegeliana? Ninguém sabe, ninguém viu.
É a exata cultura que nos faz eleger presidentes questionáveis. Enquanto extremos atraem, ponderados padecem. Por que esperar que a educação passasse incólume? Muitas vezes, o sucesso das escolas ventilador reflete o desejo por atalhos e milagres. Não por acaso, o efeito Tony Robbins encontrou no Brasil um terreno fértil, e o deságuar no ambiente político não é mera coincidência.
Qual é o modelo de educação que gerará as novas lideranças empresariais e globais de bom senso?
A educação moinho: de reskilling ao marketing de precisão
Com a inteligência artificial, tudo que é motor será mais acelerado. Já a educação moinho pode tornar o artificial mais humano, trazendo benefícios em duas grandes dimensões:
No âmbito interno das empresas, modelos moinho promovem reskilling, retém talentos, reduz turnover e fortalece a cultura de excelência e de inovação. O formato colaborativo transforma a empresa em um hub de inteligência coletiva.
Porta pra fora, as estratégias moinho criam novas oportunidades de receita a partir de um fábrica de saberes e marketing de precisão. A ampliação da base de conhecimento e a interação ativa dos participantes fortalecem a autoridade da marca, aumentando seu alcance e visibilidade no mercado. Além disso, uma comunidade engajada alarga o funil de vendas, impulsiona a fidelização de clientes, prolongando seu ciclo de vida e estimulando recompras. Surge um ecossistema e conceito de plataforma que abre portas para parcerias estratégicas e novos modelos de negócios.
Modelos baseados em comunidades de aprendizagem: uma estratégia de educação híbrida e genuína!
A questão não é sobre escolher um modelo ou outro. Pelo contrário, ambos podem – e devem – se complementar.
Apostaria em modelos educacionais que:
• Unam mentes inquietas e corações acesos para ressignificar hypes e construir novos saberes a partir de espaços generosos ao contraditório e à construção coletiva.
• Aproveitem o poder de distribuição das máquinas de venda, mas de forma mais ética e fundamentada, ampliando a ventania do que é consistente e genuíno.
Vejo um movimento diferente em profissionais de alta gestão, redes, comunidades, pequenas e médias empresas começando a adotar plataformas de inteligência coletiva.
Igualmente, grandes corporações começam a sacudir suas universidades corporativas, incorporando modelos baseados em comunidades de aprendizagem.
E para você qual é o modelo educacional que faz mais sentido?
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